Antes de Brasília ser inaugurada, em 21 de abril de 1960, o território do Distrito Federal já abrigava comunidades, alojamentos, serviços públicos e estruturas administrativas ligadas à construção da nova capital. Entre esses espaços estava a Candangolândia, criada em 1956 para dar suporte às obras conduzidas pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil, a Novacap.
A região nasceu como um acampamento de apoio à construção de Brasília e, ao longo do tempo, passou por diferentes denominações até se consolidar como Candangolândia. Sua história está associada à presença dos trabalhadores que chegaram de várias partes do país, à implantação dos primeiros serviços urbanos e à organização da estrutura que permitiu erguer a capital no Planalto Central. (pdad.ipe.df.gov.br)
Uma comunidade criada antes da inauguração da capital
A origem da Candangolândia remonta a 1956, ano em que a Novacap instalou no local o primeiro acampamento oficial de apoio à construção de Brasília. A companhia era responsável por coordenar obras, organizar áreas de trabalho e implantar estruturas necessárias para a transferência da capital federal do Rio de Janeiro para o Centro-Oeste.
O acampamento reunia a sede da Novacap, moradias para equipes técnicas e administrativas, posto de saúde, hospital, posto policial, restaurantes, escola e outros serviços destinados aos moradores. A concentração dessas estruturas fazia da área um dos principais núcleos de funcionamento da obra, em um período em que Brasília ainda era um projeto em execução e o Plano Piloto começava a sair do papel. (pdad.ipe.df.gov.br)
Inicialmente, o local ficou conhecido como Vila Operária, referência à função de abrigar trabalhadores contratados para a construção da nova capital. Mais tarde, passou a ser chamado de Vila dos Candangos. O nome Candangolândia surgiu em associação aos candangos, como eram conhecidos muitos dos operários que participaram da construção de Brasília.
Quem eram os candangos
Os candangos vieram de diferentes estados brasileiros em busca de trabalho e de oportunidades no empreendimento conduzido durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek. Eram trabalhadores da construção civil, servidores, técnicos, comerciantes e integrantes de outras categorias que ajudaram a formar a sociedade que se estabeleceu no novo Distrito Federal.
O termo “candango” passou a ser usado para identificar os trabalhadores envolvidos na construção de Brasília. A palavra, entretanto, possui uma história anterior ao projeto da capital e aparece associada a uma origem africana. Com o tempo, deixou de designar apenas os operários e passou a representar uma identidade ligada aos pioneiros e à formação social de Brasília. (pdad.ipe.df.gov.br)
A memória desses trabalhadores ocupa lugar central na história da Candangolândia. A construção da capital costuma ser lembrada por monumentos, edifícios e pelo traçado urbanístico do Plano Piloto, mas a existência de acampamentos como o da Candangolândia mostra que Brasília também foi construída por uma rede de pessoas, serviços e relações cotidianas.
A sede da Novacap e a organização do acampamento
Durante os primeiros anos da obra, a Candangolândia funcionou como um núcleo administrativo e residencial estratégico. A presença da sede da Novacap aproximava o local das decisões relacionadas ao andamento dos trabalhos e fazia da região um ponto de circulação de funcionários, operários e moradores.
Os acampamentos tinham caráter inicialmente temporário. A ideia era que, depois da inauguração da capital, as estruturas provisórias fossem desmontadas e muitos trabalhadores retornassem às cidades de origem. Na prática, parte dessas comunidades permaneceu, criou vínculos locais e participou da formação dos núcleos urbanos que se consolidaram no Distrito Federal.
Esse processo também ocorreu em outras áreas próximas, como o Núcleo Bandeirante, conhecido durante a construção como Cidade Livre. A dinâmica entre esses núcleos ajudou a formar uma rede de comércio, moradia, serviços e convivência que sustentou a construção de Brasília antes da consolidação da nova estrutura administrativa do Distrito Federal.
Serviços essenciais em meio às obras
A infraestrutura instalada na Candangolândia revela que o local não era apenas um conjunto de alojamentos. O acampamento reunia equipamentos destinados a atender uma população que crescia rapidamente e enfrentava as dificuldades de viver em uma região ainda marcada por obras, estradas de terra e construções provisórias.
O posto de saúde e o hospital tinham papel importante nesse cenário. A assistência médica era necessária para atender acidentes de trabalho, doenças, partos, crianças e moradores que dependiam dos serviços disponíveis nos acampamentos. A presença de restaurantes, escola e posto policial também indicava o esforço de organizar a vida cotidiana em uma área que se expandia junto com a construção da capital. (pdad.ipe.df.gov.br)
O Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira, conhecido pela sigla HJKO, tornou-se um dos principais símbolos desse período. O hospital foi inaugurado em 6 de julho de 1957 e funcionou até 1968. Construído em madeira, atendia trabalhadores e moradores do Distrito Federal em formação. O conjunto incluía áreas de atendimento, alojamentos e residências para funcionários.
Embora o HJKO esteja localizado no Núcleo Bandeirante, sua história está diretamente relacionada ao sistema de acampamentos e serviços que se desenvolveu no entorno da Candangolândia durante a construção de Brasília. O local foi preservado e transformado no Museu Vivo da Memória Candanga, instituição dedicada à história dos pioneiros e dos trabalhadores que participaram da formação da capital. (cadastro.museus.gov.br)
Da cidade provisória à região administrativa
Com o passar dos anos, a comunidade deixou de ser apenas um acampamento de obras. Os moradores permaneceram, as relações sociais se fortaleceram e a área passou a fazer parte da estrutura urbana do Distrito Federal. A trajetória da Candangolândia mostra como espaços concebidos como provisórios se transformaram em comunidades permanentes.
A oficialização da Candangolândia como Região Administrativa ocorreu em 3 de novembro de 1994, por meio da Lei nº 658, que criou a RA XIX. A medida reconheceu administrativamente uma comunidade cuja história já estava ligada aos primeiros anos da construção de Brasília. (cl.df.gov.br)
A transformação em região administrativa também consolidou a identidade própria da localidade. Ao contrário da imagem de uma área passageira, associada apenas aos canteiros de obras, a Candangolândia passou a ser reconhecida como um espaço de moradia, memória e continuidade histórica.
Patrimônio e memória dos pioneiros
A preservação da memória candanga envolve prédios, objetos, fotografias e relatos de moradores. No caso da Candangolândia e de seu entorno, a permanência de referências dos antigos acampamentos ajuda a compreender como Brasília foi construída para além de seus edifícios monumentais.
O Museu Vivo da Memória Candanga ocupa parte do antigo conjunto do HJKO e foi inaugurado em 26 de abril de 1990. O acervo reúne edificações históricas, mobiliário, objetos ligados ao hospital e aos pioneiros, fotografias das décadas de 1950 a 1970 e itens associados à vida cultural dos trabalhadores que chegaram ao Distrito Federal. (cadastro.museus.gov.br)
O conjunto arquitetônico do HJKO foi tombado pelo Governo do Distrito Federal em 1985, por meio do Decreto nº 9.036. A preservação permitiu que parte das construções de madeira fosse recuperada e incorporada ao museu. Em 2015, o valor histórico do conjunto também foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan. (cadastro.museus.gov.br)
As construções preservadas ajudam a visualizar a dimensão cotidiana da obra. Em vez de apresentar apenas os grandes projetos de arquitetura e urbanismo, o espaço mantém referências de hospitais, alojamentos, casas funcionais e locais de trabalho. São estruturas que revelam as condições materiais enfrentadas por quem participou da implantação da capital.
Uma história ligada à formação de Brasília
A história da Candangolândia não se limita à trajetória administrativa de uma região do Distrito Federal. Ela se conecta à formação da população brasiliense e à permanência de uma memória que muitas vezes ficou à margem das narrativas centradas no Plano Piloto.
A construção de Brasília exigiu a chegada de milhares de pessoas, a abertura de caminhos, a criação de serviços e a adaptação a uma área que ainda não dispunha da infraestrutura encontrada em cidades consolidadas. Os acampamentos foram fundamentais para que as obras avançassem e para que os trabalhadores pudessem viver no território durante a execução do projeto.
Por isso, a Candangolândia é frequentemente lembrada como uma das comunidades mais antigas do Distrito Federal e como um dos lugares associados ao início da construção de Brasília. A expressão “cidade-mãe de Brasília”, usada em homenagens e eventos públicos, procura destacar essa relação histórica com os primeiros anos da capital. (cl.df.gov.br)
O que a Candangolândia preserva
As memórias da região estão presentes em antigos equipamentos, na trajetória de famílias pioneiras, nos relatos sobre os primeiros moradores e na identificação com os candangos. Também aparecem em instituições que preservam documentos, fotografias e objetos relacionados ao período de construção.
A atuação da Novacap, a instalação dos serviços públicos e a permanência das comunidades formadas nos acampamentos ajudam a explicar por que a história da Candangolândia é inseparável da história de Brasília. O local testemunhou a passagem de uma área de apoio às obras para uma comunidade integrada ao Distrito Federal.
Mais de seis décadas depois da criação do acampamento, a Candangolândia continua associada à memória dos primeiros anos da capital. Sua trajetória lembra que Brasília não começou apenas com a inauguração dos edifícios projetados para o Plano Piloto. A cidade também nasceu nos alojamentos, nos hospitais, nas escolas, nos restaurantes e nas moradias onde viveram os trabalhadores que deram forma ao projeto.
Preservar essa história significa reconhecer a participação dos candangos e das comunidades que sustentaram a construção da nova capital. Nesse sentido, a Candangolândia permanece como uma referência para compreender a dimensão humana, social e cotidiana da formação de Brasília.