segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Cidades

Fercal, em Brasília, preserva características rurais do Distrito Federal

Localizada na região norte do Distrito Federal, a Fercal combina atividade industrial, produção agropecuária, comunidades rurais e áreas de preservação ambiental. A história da Região Administrativa começou antes da construção de Brasília e foi marcada pela instalação de mineradoras, pela formação de núcleos populacionais e pela permanência de modos de vida ligados ao campo.

A Fercal, na região norte do Distrito Federal, preserva características rurais mesmo depois de ter se consolidado como um dos principais polos industriais da capital. A Região Administrativa reúne comunidades formadas a partir de antigas ocupações do campo, áreas de produção agropecuária, criação de animais, pequenas propriedades, manifestações culturais e paisagens marcadas por vales, morros, córregos e áreas de preservação.

A história local começou antes da inauguração de Brasília. A área era ocupada por sitiantes e fazia parte de uma grande propriedade rural associada à antiga Fazenda Sobradinho. A partir de 1956, começaram a se formar os núcleos populacionais que deram origem à configuração atual da Fercal. No início, as ocupações tinham caráter rural e também estavam relacionadas à exploração do calcário agrícola. (codeplan.df.gov.br)

Uma região formada antes da construção de Brasília

Registros históricos citados pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal indicam a presença de sitiantes no Vão do Buraco, ao norte de Sobradinho, desde o início do século 19. Em 1810, um fiscal de impostos rurais identificou moradores e propriedades na área que, naquele período, integrava a região de Santa Luzia, vinculada a Luziânia, em Goiás.

Essa ocupação anterior à transferência da capital ajuda a explicar por que a Fercal mantém uma relação distinta com o território. Enquanto diversas áreas do Distrito Federal foram planejadas para funções administrativas, residenciais ou industriais, a Fercal preservou uma estrutura marcada pela dispersão de comunidades, pelas propriedades rurais e pelo uso produtivo da terra.

A instalação de Brasília ampliou a importância estratégica da região. A construção da nova capital exigiu grande quantidade de insumos, como cal, brita e outros materiais utilizados em obras. A existência de reservas minerais próximas favoreceu a instalação de empreendimentos ligados à extração e ao beneficiamento do calcário.

O nome Fercal surgiu de uma mineradora

O nome da região vem da Sociedade Fertilizantes Calcáreos Ltda., conhecida pela sigla Fercal. A mineradora foi instalada na área em 1961, por meio de autorização vinculada ao governo do então presidente Juscelino Kubitschek. A atividade extrativa atraiu trabalhadores de diferentes partes do país e acelerou a formação de novos núcleos habitacionais.

O crescimento populacional ocorreu em torno da oferta de empregos e da expansão das atividades de mineração. Segundo levantamento da Codeplan, a ocupação progressiva resultou na formação de 14 comunidades: Rua do Mato, Queima Lençol, Bananal, Engenho Velho, Alto Bela Vista, Fercal Leste, Fercal Oeste, Boa Vista, Caatingueiro, Ribeirão, Lobeiral, Projeto de Assentamento Contagem, Córrego do Ouro e Sonhém de Cima. (codeplan.df.gov.br)

A mineração modificou a economia local, mas não eliminou as atividades rurais. Ao longo do tempo, a região passou a reunir duas vocações que convivem no mesmo território: de um lado, as fábricas de cimento, as usinas de asfalto e as mineradoras; de outro, propriedades voltadas à agricultura, à criação de animais e ao abastecimento de mercados e feiras.

Indústria e campo convivem no mesmo território

Entre o fim dos anos 1960 e o início da década de 1970, a fabricação de cimento e de agregados ganhou espaço na Fercal, acompanhando a expansão da indústria cimenteira brasileira. A Ciplan foi fundada em 1968, e uma unidade da Votorantim Cimentos começou a operar na região em 1972. A presença dessas empresas consolidou a Fercal como uma área industrial relevante para o Distrito Federal e para a região Centro-Oeste. (codeplan.df.gov.br)

A atividade industrial passou a exercer forte influência sobre a economia e sobre a organização espacial da Região Administrativa. Ela gerou empregos, atraiu moradores e estimulou a instalação de comércios e serviços. Ao mesmo tempo, a permanência de comunidades rurais impediu que a área se transformasse exclusivamente em um núcleo industrial.

Em diferentes pontos da Fercal, a paisagem ainda é marcada por chácaras, estradas de terra, pastagens, áreas de cultivo e criação de animais. A região apresenta produção de hortaliças e outros produtos agrícolas, além de atividades pecuárias. Documentos legislativos e registros sobre a realidade local citam a criação de gado leiteiro, suínos, ovinos e cavalos, assim como a produção de hortifrutigranjeiros. (cl.df.gov.br)

Produção rural abastece feiras do Distrito Federal

A produção agropecuária da Fercal tem importância que ultrapassa os limites da própria Região Administrativa. Informações apresentadas em documentos da Câmara Legislativa do Distrito Federal apontam que produtores locais abastecem feiras da Fercal, de Sobradinho, de Sobradinho II e do Grande Colorado, além de contribuírem para o fornecimento de produtos destinados à Ceasa.

Essa relação com os mercados próximos reforça uma característica comum à agricultura de áreas rurais do Distrito Federal: a proximidade entre o local de produção e o consumidor. Em vez de depender exclusivamente de grandes cadeias de distribuição, parte dos agricultores comercializa produtos em feiras, eventos e circuitos locais.

A produção também se conecta a atividades de processamento e à identidade cultural. Há referências locais à produção de café, de bebidas artesanais e de alimentos associados às festas e tradições do campo. A Festa da Pamonha, as feiras de produtores rurais e os eventos comunitários são exemplos de como a agricultura aparece não apenas como atividade econômica, mas também como elemento de sociabilidade.

Os dados disponíveis não permitem afirmar que toda a economia da Fercal seja rural. A Região Administrativa também tem forte presença industrial e de serviços. O que os registros mostram é a coexistência de atividades econômicas distintas, com a produção rural preservando espaço e relevância dentro de uma área marcada pela mineração e pela urbanização.

Comunidades preservam vínculos e tradições

A organização da Fercal em comunidades contribui para a manutenção de vínculos sociais associados à vida rural. Muitas localidades se desenvolveram a partir de famílias que permaneceram na região por décadas. Esses laços aparecem em festas religiosas, encontros comunitários, grupos culturais, cavalgadas e atividades realizadas em torno das escolas, igrejas, feiras e associações.

Entre as manifestações citadas em documentos públicos estão a Folia de Reis, a Folia do Divino, os arraiás, os grupos de rezadeiras, as rodas de catira e as cavalgadas. O calendário local também inclui feiras culturais, atividades esportivas e comemorações do aniversário da Fercal. (cl.df.gov.br)

Essas práticas ajudam a preservar formas de convivência que não dependem apenas da estrutura urbana convencional. A circulação de produtos, a realização de festas e o uso coletivo de espaços comunitários fortalecem a identidade de uma região que se desenvolveu de modo diferente de áreas mais densamente urbanizadas do Distrito Federal.

Natureza e turismo rural

A presença de áreas naturais é outro componente da identidade da Fercal. A Região Administrativa está próxima da Área de Proteção Ambiental de Cafuringa, uma unidade conhecida pela diversidade de formações naturais, pelos recursos minerais e pelo relevo acidentado. A paisagem inclui córregos, riachos, pequenas cachoeiras, grutas, cavernas e trilhas.

O relevo montanhoso e a existência de áreas de preservação favorecem atividades de turismo rural, ecoturismo, contemplação e aventura. Em dezembro de 2025, a Lei Distrital nº 7.775 instituiu a Fercal como Patrimônio Distrital do Ecoturismo, segundo registro da Câmara Legislativa. A norma reconhece a vocação da região para diferentes segmentos turísticos, incluindo o rural e o gastronômico. (cl.df.gov.br)

A valorização do turismo, porém, depende de planejamento e de cuidados ambientais. A presença de trilhas, cursos d’água e áreas protegidas exige controle do uso do solo, manejo adequado dos resíduos e respeito às regras de preservação. A atividade turística pode gerar renda para moradores e produtores, mas precisa ser compatível com a conservação dos recursos naturais.

Autonomia administrativa só veio em 2012

A Fercal passou por diferentes fases administrativas antes de se tornar uma Região Administrativa independente. Inicialmente, esteve vinculada a Sobradinho. Depois, passou a integrar Sobradinho II. A autonomia administrativa foi reconhecida em 29 de janeiro de 2012, com a sanção da Lei nº 4.745.

A criação da Região Administrativa ocorreu depois de décadas de crescimento populacional e econômico. O reconhecimento oficial deu maior visibilidade às demandas específicas da área, que combina comunidades urbanas e rurais, atividade industrial, produção agropecuária e áreas ambientais de interesse.

A PDAD divulgada pela Codeplan em 2019 descreveu a Fercal como a Região Administrativa mais recente do Distrito Federal naquele momento e destacou a ocupação iniciada com a instalação da mineradora, além da presença de fábricas de cimento, usinas de asfalto e mineradoras. O estudo também registrou a consolidação da ocupação ao longo das rodovias DF-150 e DF-001. (ipedf.df.gov.br)

Uma identidade marcada pela diversidade

A Fercal preserva características rurais porque sua história não foi apagada pela industrialização. A mineração transformou a região, mas conviveu com propriedades agrícolas, criação de animais, festas populares, comunidades tradicionais e paisagens naturais.

Essa combinação produz uma identidade própria dentro de Brasília. A Fercal é, ao mesmo tempo, uma área de produção industrial, um território de agricultura e pecuária, um conjunto de comunidades com forte vínculo local e uma região com potencial para o turismo rural e ecológico.

Preservar essa diversidade depende de políticas públicas que reconheçam as diferentes funções do território. O desenvolvimento da infraestrutura, a melhoria dos serviços públicos e a geração de empregos precisam considerar tanto a atividade industrial quanto as necessidades dos produtores rurais, das comunidades e das áreas de proteção ambiental.

Mais do que uma exceção no mapa do Distrito Federal, a Fercal representa uma parte da história da formação de Brasília que permanece visível na paisagem e no cotidiano. A região mostra que a capital planejada também é formada por territórios rurais, por antigos caminhos, por famílias ligadas à terra e por atividades que começaram antes da construção dos grandes edifícios do Plano Piloto.

Fontes: Codeplan, Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação e Câmara Legislativa do Distrito Federal.