segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Cidades

Gama preserva marcas da história de Brasília desde os primeiros anos da capital

O Gama ocupa um lugar importante na história de Brasília. A região nasceu no período de construção da capital, incorporou áreas de antigas fazendas e mantém referências ligadas à presença de Juscelino Kubitschek, à chegada dos pioneiros e à expansão urbana do Distrito Federal.

A história do Gama está ligada diretamente ao nascimento de Brasília. A região administrativa foi criada em 1960, no mesmo período em que a nova capital era construída no Planalto Central, para receber parte da população que chegava em busca de trabalho e também famílias removidas de ocupações próximas ao Plano Piloto.

Mais do que uma cidade formada durante a expansão de Brasília, o Gama preserva vestígios de uma paisagem anterior à capital. O nome remete à antiga Fazenda Gama e ao ribeirão que atravessa a região. No território também estão referências relacionadas à primeira visita de Juscelino Kubitschek ao local escolhido para a construção da nova sede do governo federal e à instalação do Catetinho, residência provisória usada pelo presidente durante o início das obras.

Antes da cidade, havia fazendas e núcleos rurais

As terras onde hoje está o Gama faziam parte da área escolhida para receber o Distrito Federal. Antes da construção de Brasília, a região era ocupada por propriedades rurais, entre elas as fazendas Gama, Ponte Alta e Ipê. O território também foi marcado por ocupações indígenas e pela presença posterior de bandeirantes, criadores de gado e agricultores.

Com a transferência da capital para o interior do país, áreas que pertenciam ao município goiano de Santa Luzia foram incorporadas ao projeto do novo Distrito Federal. O processo de desapropriação ocorreu durante a segunda metade da década de 1950, enquanto o governo federal e a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil, a Novacap, organizavam a implantação de Brasília.

O Censo Experimental de Brasília, realizado em 1959, registrou cerca de mil moradores na área que viria a formar o Gama. Segundo a Administração Regional, aproximadamente 587 pessoas viviam nas proximidades da Fazenda Gama, 259 estavam na Fazenda Ponte Alta e 108 moravam na Fazenda Ipê. Os dados mostram que a região não era um espaço vazio antes da chegada das obras, mas um território com moradores, atividades rurais e referências próprias. (gama.df.gov.br)

A Fazenda Gama e a primeira visita de Juscelino Kubitschek

A antiga Fazenda Gama entrou na narrativa oficial da construção de Brasília em outubro de 1956. Em 2 de outubro daquele ano, Juscelino Kubitschek fez sua primeira visita à área destinada à nova capital. A sede da fazenda serviu como ponto de apoio para a comitiva presidencial, em razão da proximidade com a pista de pouso provisória e das condições de acesso ao local das obras.

O episódio é considerado um dos marcos iniciais da transformação da região. Naquele momento, Brasília ainda estava em fase de planejamento e implantação. Estradas, alojamentos, acampamentos e estruturas administrativas começavam a ser montados, enquanto equipes técnicas trabalhavam na definição dos espaços que receberiam os edifícios públicos, as áreas residenciais e os serviços da futura capital.

A casa-sede da antiga Fazenda Gama permaneceu como testemunho material desse período. O imóvel, conhecido como Casa da Fazenda Gama ou Museu Casa Velha, foi reconhecido como patrimônio cultural do Distrito Federal pelo Decreto nº 26.660, de 21 de março de 2006. O tombamento distrital incluiu a edificação entre os bens ligados à memória dos antecedentes e da construção de Brasília. (atom.arquivopublico.df.gov.br)

O Catetinho e o começo das obras

Outro marco associado ao território do Gama é o Catetinho, construído na antiga Fazenda Gama para servir como residência provisória de Juscelino Kubitschek. A estrutura de madeira foi levantada em 1956, em poucos dias, para que o presidente pudesse acompanhar de perto o avanço da construção da capital.

O edifício recebeu inicialmente o nome de Palácio Provisório. A denominação Catetinho surgiu posteriormente, em referência informal ao Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, então sede do governo federal. A construção tinha caráter funcional e temporário, mas acabou incorporada à história de Brasília por ter sido a primeira residência oficial de Juscelino Kubitschek no novo Distrito Federal.

O Catetinho foi inscrito como patrimônio histórico e artístico nacional em 1959. Sua preservação ajuda a explicar as condições materiais dos primeiros anos da construção de Brasília, quando a infraestrutura ainda era limitada e os responsáveis pelo projeto precisavam trabalhar em meio ao cerrado, a estradas precárias e a estruturas provisórias.

Documentos preservados pelo Arquivo Público do Distrito Federal registram a chegada de materiais para a construção do Catetinho e mostram a relação entre a residência presidencial, a sede da fazenda e a paisagem natural da região. A proximidade de nascentes e de áreas de mata de galeria foi um dos fatores que contribuíram para a escolha do local. (atom.arquivopublico.df.gov.br)

Uma cidade criada durante a construção de Brasília

O Gama foi fundado em 12 de outubro de 1960, poucos meses depois da inauguração de Brasília. Seu primeiro núcleo habitacional começou a ser implantado ainda naquele ano, com edificações simples, muitas delas construídas em madeira e sem serviços urbanos completos.

A formação da cidade respondeu a uma necessidade prática do projeto de Brasília: organizar a população que se concentrava em acampamentos, invasões e áreas provisórias próximas ao Plano Piloto. A nova região também recebeu trabalhadores envolvidos na construção da capital e famílias deslocadas de diferentes pontos do Distrito Federal.

Nos primeiros anos, a infraestrutura era limitada. As primeiras moradias não contavam com abastecimento regular de água, iluminação pública e rede de esgoto. A expansão ocorreu de forma gradual, acompanhando a instalação de equipamentos públicos, vias de circulação, comércio e serviços.

Esse processo revela uma característica importante da história urbana de Brasília. A capital foi planejada a partir do Plano Piloto, mas sua construção dependeu de uma rede de cidades e núcleos habitacionais formados para abrigar trabalhadores e moradores que não encontravam espaço no centro planejado. O Gama fez parte desse movimento desde o início.

Em 10 de dezembro de 1964, a Lei nº 4.545 reorganizou administrativamente o Distrito Federal e consolidou o Gama como Região Administrativa II. A área original foi posteriormente reduzida com a criação de outras regiões administrativas, como Santa Maria e Recanto das Emas. (pdad.ipe.df.gov.br)

Memória dos pioneiros e expansão da cidade

A história do Gama também é marcada pela presença dos chamados pioneiros, termo usado para designar trabalhadores, técnicos, servidores e famílias que participaram da formação de Brasília. Parte desses moradores chegou de outras regiões do país durante a construção da capital e permaneceu no Distrito Federal depois da inauguração.

O crescimento da cidade acompanhou as mudanças econômicas e demográficas do Distrito Federal. O Gama passou a desempenhar funções próprias, com comércio, escolas, serviços públicos, equipamentos esportivos e atividades culturais. Ao mesmo tempo, manteve uma relação de influência com municípios goianos próximos, como Novo Gama, Valparaíso, Cidade Ocidental, Luziânia e Santo Antônio do Descoberto.

Essa posição transformou a região em um dos principais polos urbanos do sudoeste do Distrito Federal. O Gama deixou de ser apenas uma área de apoio à construção de Brasília e passou a integrar a dinâmica metropolitana da capital, com população, identidade e vida econômica próprias.

A expansão, no entanto, não apagou completamente as camadas mais antigas da ocupação. O nome da cidade, do ribeirão e da antiga fazenda permanece como referência geográfica e histórica. A presença de áreas rurais, cursos d’água e antigos caminhos ajuda a lembrar que Brasília foi implantada sobre um território ocupado antes de 1960.

Preservar a história para além do Plano Piloto

A preservação da memória do Gama amplia a compreensão sobre o patrimônio de Brasília. Durante muito tempo, a imagem da capital esteve associada principalmente aos edifícios monumentais do Plano Piloto, ao projeto urbanístico de Lúcio Costa e à arquitetura de Oscar Niemeyer. Esses elementos são fundamentais, mas não esgotam a história do Distrito Federal.

A construção da capital também envolveu fazendas, acampamentos, cidades administrativas, trabalhadores e comunidades que deram suporte à implantação do projeto. O Gama ocupa lugar relevante nesse conjunto porque reúne vestígios do período anterior à inauguração, referências da presença presidencial e marcas da formação social de Brasília.

O reconhecimento da Casa da Fazenda Gama como patrimônio distrital representa uma tentativa de preservar uma arquitetura e uma paisagem diferentes das formas modernistas pelas quais Brasília costuma ser lembrada. A edificação remete ao mundo rural existente antes da capital e ajuda a conectar a história da região aos processos de ocupação do Planalto Central.

O Arquivo Público do Distrito Federal também tem papel importante nesse trabalho. Criado em 14 de março de 1985, o órgão reúne documentos textuais, fotografias, filmes, mapas e outros registros sobre a construção de Brasília e a administração do Distrito Federal. Parte desse material permite acompanhar a transformação da Fazenda Gama em área urbana e recuperar imagens, relatos e documentos produzidos durante os primeiros anos da capital. (atom.arquivopublico.df.gov.br)

Uma parte da história de Brasília ainda em movimento

A trajetória do Gama mostra que a história de Brasília não terminou com a inauguração da capital, em 21 de abril de 1960. A cidade continuou sendo formada por deslocamentos populacionais, obras públicas, expansão urbana e criação de novas centralidades.

O Gama preserva, ao mesmo tempo, memórias de diferentes períodos: o passado rural da Fazenda Gama, a chegada de Juscelino Kubitschek, a construção do Catetinho, a organização dos primeiros núcleos habitacionais e a consolidação de uma região administrativa com identidade própria.

Conhecer essa trajetória ajuda a compreender Brasília como um território mais amplo do que o conjunto monumental do Plano Piloto. A capital também foi construída em lugares como o Gama, onde a memória da antiga paisagem convive com a cidade formada pelos trabalhadores e moradores que deram continuidade ao projeto iniciado no cerrado.