segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Cidades

História do Cruzeiro em Brasília: região tradicional do Distrito Federal

A história do Cruzeiro em Brasília começou antes da inauguração da capital. Ocupada a partir de 1955, a região foi planejada para abrigar funcionários públicos transferidos do Rio de Janeiro e se tornou uma das áreas tradicionais do Distrito Federal.

A história do Cruzeiro em Brasília está ligada aos primeiros anos de construção da capital federal. A região foi ocupada antes da inauguração de Brasília e planejada para receber funcionários públicos transferidos do Rio de Janeiro, então capital do país. Com casas geminadas, conjuntos residenciais e, mais tarde, edifícios de apartamentos, o Cruzeiro se consolidou como uma das áreas tradicionais do Distrito Federal.

Atualmente, o Cruzeiro é uma Região Administrativa do Distrito Federal, identificada como RA XI. Apesar de estar integrado à área urbana de Brasília e de fazer parte da poligonal de tombamento do Plano Piloto, o território possui trajetória própria, marcada pela chegada dos pioneiros, pela influência cultural carioca e pela formação de uma identidade comunitária que atravessou diferentes fases da expansão urbana.

Ocupação começou na antiga Fazenda Bananal

A ocupação da área onde hoje está o Cruzeiro começou em 1955, nas terras da Fazenda Bananal. A propriedade fazia parte da área desapropriada para a construção da nova capital no Planalto Central. Naquele período, o governo federal organizava a transferência dos órgãos públicos e de seus servidores do Rio de Janeiro para Brasília.

A escolha da área para moradia atendia a uma necessidade prática do projeto da capital: criar setores residenciais próximos ao núcleo planejado por Lucio Costa. O Cruzeiro foi concebido como parte do Plano Piloto e recebeu trabalhadores que participavam da implantação de Brasília, entre servidores civis, militares e suas famílias.

As primeiras construções residenciais começaram a surgir ainda antes da inauguração da capital. Segundo registros do Governo do Distrito Federal, as casas geminadas destinadas aos funcionários públicos começaram a ser construídas em 1958. A ocupação ganhou forma no ano seguinte, quando o setor passou a ser reconhecido oficialmente como uma área residencial vinculada ao processo de formação de Brasília.

Do Setor de Residências Econômicas ao nome Cruzeiro

O projeto original recebeu o nome de Setor de Residências Econômicas Sul, conhecido pela sigla SRES. A denominação descrevia a função do local, mas não criou uma identificação popular forte entre os moradores. Com o tempo, a comunidade passou a utilizar apelidos para se referir ao bairro.

Um dos nomes associados à área foi “Gavião”, em referência à presença dessas aves na região. Também há registros de que o local tenha sido chamado informalmente de “Cemitério”, uma alusão ao isolamento do conjunto residencial e à aparência uniforme das primeiras casas. Esses nomes, no entanto, não se tornaram a designação definitiva do bairro.

A mudança para Cruzeiro esteve relacionada à proximidade com a praça onde havia sido instalado o marco religioso conhecido como Cruzeiro. O local era considerado um ponto de referência nos primeiros anos da nova capital e estava associado à celebração da primeira missa de Brasília, realizada em 3 de maio de 1957.

Outra explicação registrada para a adoção do nome é a existência de uma linha de ônibus da antiga TCB, a empresa de transporte coletivo de Brasília, que fazia o trajeto entre a área do marco e o setor residencial. A combinação entre a referência geográfica, a memória da construção da capital e o uso cotidiano do transporte ajudou a consolidar o nome Cruzeiro.

Fundação oficial e formação do Cruzeiro Velho

A data oficial de fundação do Cruzeiro é 30 de novembro de 1959. O marco é utilizado para celebrar o aniversário da região. O conjunto inicial, formado principalmente por casas geminadas, passou a ser conhecido mais tarde como Cruzeiro Velho.

A arquitetura do Cruzeiro Velho reflete a fase inicial de ocupação de Brasília. Em vez dos grandes blocos residenciais das superquadras, predominam casas de menor porte organizadas em conjuntos. O desenho urbano favoreceu uma escala mais próxima da vida de bairro, com ruas internas, áreas abertas e convivência entre moradores.

As famílias que chegaram à região levaram hábitos e referências culturais do Rio de Janeiro. Essa presença contribuiu para a formação de tradições locais, especialmente na música, no carnaval, na organização comunitária e nas festas populares. Ao longo das décadas, essas influências foram combinadas com costumes trazidos por moradores de outras partes do país.

O surgimento do Cruzeiro Novo

O crescimento de Brasília levou à expansão da área residencial. No fim dos anos 1960, começou a ser implantado o setor vizinho que passou a ser chamado de Cruzeiro Novo. O nome oficial era Setor de Habitações Coletivas Econômicas Sul, formado por blocos residenciais de quatro pavimentos.

A nova área apresentava uma configuração urbana diferente da encontrada no Cruzeiro Velho. Enquanto o primeiro núcleo era marcado por casas geminadas, o Cruzeiro Novo foi estruturado com edifícios residenciais e espaços comuns. A expansão ampliou a capacidade de moradia da região e incorporou novos grupos de servidores públicos e trabalhadores da iniciativa privada.

A distinção entre Cruzeiro Velho e Cruzeiro Novo tornou-se parte do vocabulário cotidiano dos moradores. Embora tenham características arquitetônicas diferentes, os dois setores formam uma mesma região administrativa e compartilham a história de ocupação ligada à construção da capital.

Da área residencial à Região Administrativa

Durante os primeiros anos, o Cruzeiro esteve administrativamente vinculado ao Plano Piloto. A separação ocorreu em 1989, quando a Lei nº 49, de 25 de outubro daquele ano, criou a Região Administrativa do Cruzeiro, identificada como RA XI.

A criação da região administrativa formalizou uma realidade urbana que já vinha se consolidando. O Cruzeiro possuía população estável, comércio, escolas, equipamentos públicos e uma rede própria de relações comunitárias. A autonomia administrativa também permitiu organizar a gestão local de uma área que havia crescido junto com Brasília.

O território passou por nova mudança em 2003. Com a publicação da Lei nº 3.153, os setores Sudoeste e Octogonal foram desmembrados do Cruzeiro e transformados em uma região administrativa própria. A alteração reduziu a área sob responsabilidade da RA XI e definiu a configuração administrativa mais conhecida atualmente.

A relação com o patrimônio de Brasília

O Cruzeiro está inserido na poligonal de tombamento do Plano Piloto. Brasília foi reconhecida como Patrimônio Histórico e Artístico da Humanidade em 1987 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, a Unesco. No âmbito federal, a proteção da área também passou a ser tratada por instrumentos de preservação a partir da década de 1990.

A presença do Cruzeiro nesse conjunto reforça a importância de suas características urbanas e arquitetônicas. A região não é apenas uma área residencial próxima ao centro da capital: ela participa da história do plano urbano de Brasília e conserva formas de ocupação associadas ao período de construção da cidade.

O vínculo com a Praça do Cruzeiro também amplia esse significado. Localizada em uma área elevada e estratégica do Planalto Central, a praça foi um dos pontos observados pelas autoridades envolvidas na escolha e na construção da nova capital. De lá, era possível visualizar parte da área que se transformaria no núcleo urbano de Brasília.

Cultura e identidade comunitária

A identidade do Cruzeiro foi construída não apenas pelos conjuntos residenciais, mas também pelas manifestações culturais organizadas pelos próprios moradores. O carnaval ocupa lugar de destaque nessa trajetória, principalmente por causa da Associação Recreativa Cultural Unidos do Cruzeiro, a ARUC.

Fundada em 1961, a ARUC se tornou uma das principais instituições culturais do Distrito Federal. A associação ajudou a preservar a tradição das escolas de samba em Brasília e manteve a ligação do Cruzeiro com a cultura carioca trazida pelos primeiros moradores.

A vida cultural da região também inclui atividades musicais, grupos ligados ao folclore, encontros comunitários e iniciativas de preservação da memória. A Casa da Memória do Cruzeiro reúne registros fotográficos e documentais relacionados à formação do bairro e ao cotidiano das famílias que participaram dos primeiros anos da capital.

Essas iniciativas contribuem para registrar uma história que muitas vezes não aparece apenas nos grandes monumentos de Brasília. A construção da capital também foi feita por trabalhadores, servidores e moradores que organizaram suas casas, criaram vínculos de vizinhança e estabeleceram tradições em áreas residenciais como o Cruzeiro.

Uma região tradicional do Distrito Federal

Mais de seis décadas depois de sua fundação, o Cruzeiro permanece associado à memória dos pioneiros e à formação urbana de Brasília. A divisão entre Cruzeiro Velho e Cruzeiro Novo revela diferentes etapas da ocupação, enquanto a criação da Região Administrativa demonstra a consolidação institucional do bairro.

A região reúne referências de períodos distintos: a antiga Fazenda Bananal, os primeiros conjuntos de casas, a expansão dos blocos residenciais, a transformação administrativa e a preservação de manifestações culturais. Essa combinação explica por que o Cruzeiro é frequentemente reconhecido como uma das áreas tradicionais do Distrito Federal.

Conhecer a história do Cruzeiro em Brasília significa observar a capital para além dos edifícios monumentais e dos eixos planejados. O bairro mostra como o projeto de uma cidade moderna também foi construído por comunidades permanentes, com memória própria, vínculos culturais e participação cotidiana na formação do Distrito Federal.

Fontes consultadas: Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal, Arquivo Público do Distrito Federal e Câmara Legislativa do Distrito Federal.