A história de Planaltina se confunde com a própria ocupação do Planalto Central. Mais antiga que Brasília, a cidade surgiu a partir das rotas que ligavam áreas de mineração e criação de gado no interior do país. Ao longo de mais de dois séculos, tornou-se arraial, distrito, vila, município goiano e, depois, uma das regiões administrativas do Distrito Federal.
O núcleo urbano preserva referências de diferentes momentos da história regional: a ocupação colonial, a expansão da pecuária, os estudos para a transferência da capital e a transformação provocada pela construção de Brasília. Por isso, Planaltina é considerada o núcleo urbano mais antigo do Distrito Federal, segundo registros do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal.
As origens do arraial de Mestre d’Armas
A formação de Planaltina remonta ao fim do século 18, período associado ao declínio da mineração em áreas próximas de Goiás e ao avanço de atividades rurais, especialmente a criação de gado. A região funcionava como ponto de passagem e descanso para viajantes que percorriam caminhos do interior, além de estar ligada ao deslocamento de mercadorias e à arrecadação de tributos.
Os primeiros moradores se estabeleceram nas proximidades de cursos d’água e lagoas. Uma das versões registradas em documentos históricos relaciona a ocupação inicial à chegada da família Gomes Rabello, que teria se fixado nas proximidades da Lagoa Bonita, também conhecida como Lagoa Mestre d’Armas. Os integrantes da família ficaram conhecidos como “lagoeiros”.
Outra presença marcante foi a de um ferreiro especializado no conserto de armas. Pela habilidade no ofício, ele teria recebido o título de “mestre”, expressão que, associada à atividade exercida, deu origem ao nome Mestre d’Armas. A explicação é apresentada em estudos e registros institucionais sobre a formação do povoado, embora os detalhes sobre a identidade do ferreiro pertençam ao campo da tradição histórica local.
O desenvolvimento inicial ocorreu de forma gradual. Casas, fazendas, pastagens e pequenas estruturas religiosas formaram o núcleo que mais tarde seria reconhecido oficialmente. Há registros de que já existia um cemitério na localidade em 1812, o que indica a presença de uma comunidade organizada no começo do século 19.
De distrito a município de Goiás
Durante parte do período colonial e imperial, o território de Mestre d’Armas esteve administrativamente ligado a diferentes localidades de Goiás. Primeiro, pertenceu à Vila de Santa Luzia, atual Luziânia. Depois, passou à área de influência de Couros, atual Formosa.
Em 19 de agosto de 1859, a localidade foi criada oficialmente como distrito de Mestre d’Armas por lei da Assembleia Provincial de Goiás. Essa data passou a ser adotada como o aniversário oficial de Planaltina. O povoado foi elevado à categoria de vila em 1891 e, no ano seguinte, passou a ter estruturas administrativas próprias, como intendência, cadeia e escola.
O nome da localidade mudou ao longo do tempo. Em 1910, o município passou a se chamar Altamir, denominação associada às características da paisagem e aos pontos elevados da região. Em 1917, adotou definitivamente o nome Planaltina. A mudança acompanhou a consolidação da cidade como centro de circulação e serviços para uma área rural formada por fazendas, criadores de gado e produtores agrícolas.
Os registros do Codeplan e do Governo do Distrito Federal também destacam que o município se desenvolveu em uma área de transição entre rotas antigas, propriedades rurais e núcleos de povoamento do Planalto Central.
A relação com a Missão Cruls
A posição de Planaltina ganhou importância nacional no fim do século 19, quando a transferência da capital brasileira para o interior passou a ser tratada como uma decisão estratégica. A Constituição de 1891 determinou que a nova capital deveria ser estabelecida no Planalto Central.
Em 1892, o governo republicano organizou a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, chefiada pelo astrônomo e diretor do Observatório Imperial Luiz Cruls. A expedição ficou conhecida como Missão Cruls e realizou levantamentos científicos, geográficos e ambientais para identificar a área adequada à futura capital.
Planaltina esteve entre os pontos visitados e estudados pela comissão. A cidade serviu como referência urbana em uma região ainda marcada por fazendas, caminhos rurais e grandes distâncias entre os povoados. A presença da Missão Cruls colocou o município no centro das discussões sobre a interiorização da capital, décadas antes da construção de Brasília.
O Atlas do Distrito Federal registra que a área posteriormente escolhida para a construção de Brasília abrangia territórios dos municípios goianos de Formosa, Planaltina e Luziânia. Na época, Planaltina já era um núcleo urbano consolidado, embora a maior parte da população estivesse distribuída em fazendas e pequenas comunidades.
A Pedra Fundamental de 1922
Outro capítulo decisivo da história de Planaltina ocorreu em 7 de setembro de 1922, durante as comemorações do centenário da Independência do Brasil. Naquele dia, foi lançada a Pedra Fundamental da futura capital da República, em uma área rural do município.
O marco foi instalado no Morro do Centenário, também associado à Serra da Independência. A cerimônia representou a reafirmação do projeto de transferir a capital para o interior, ainda que Brasília só viesse a ser construída décadas depois.
A Pedra Fundamental não corresponde ao local onde está o Plano Piloto de Brasília. Ela é, porém, um símbolo da etapa inicial de definição política e territorial da nova capital. O monumento permanece na área de Planaltina e é reconhecido pelo Distrito Federal como um dos bens relacionados à existência de Brasília antes de sua inauguração.
A importância do marco também aparece em publicações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que relacionam Planaltina aos estudos e acontecimentos que antecederam a construção da capital.
Planaltina e a criação do Distrito Federal
Quando Brasília foi inaugurada, em 21 de abril de 1960, Planaltina já tinha mais de cem anos de história. O município goiano teve seu território dividido pelo quadrilátero estabelecido para o novo Distrito Federal. A antiga sede municipal ficou dentro da área incorporada ao Distrito Federal, enquanto a parte situada fora do quadrilátero permaneceu em Goiás.
A parcela goiana passou a ter uma nova sede e adotou o nome Planaltina de Goiás, conhecida popularmente como Brasilinha. A sede histórica, por sua vez, foi integrada à estrutura administrativa do Distrito Federal e deixou de ter a condição de município autônomo.
O processo alterou a relação da cidade com o território. Planaltina passou a fazer parte da expansão urbana de Brasília e recebeu novos moradores, serviços e áreas residenciais. Em 1964, com a divisão administrativa do Distrito Federal em regiões, foi definida como Região Administrativa de Planaltina, identificada como RA VI.
Essa transição não apagou a trajetória anterior da cidade. Ao contrário, criou uma situação singular: um núcleo urbano formado antes da construção de Brasília passou a fazer parte da capital planejada e a conviver com uma população, uma arquitetura e tradições próprias.
Patrimônio histórico no centro da cidade
O Setor Tradicional de Planaltina concentra parte importante das construções que ajudam a contar a história local. Entre elas estão a Igreja de São Sebastião, edificações antigas e o Museu Histórico e Artístico de Planaltina.
O museu funciona em um casarão construído entre o fim do século 19 e o início do século 20. O imóvel pertenceu à família de Salviano Monteiro e foi descrito em documentos oficiais como uma das residências de maior destaque da cidade. O espaço recebeu autoridades, festas e acontecimentos sociais antes de ser transformado em museu.
De acordo com o Cadastro Nacional de Museus, o acervo apresenta objetos e referências ao modo de vida dos moradores do antigo município goiano e às transformações provocadas pela mudança da capital para o interior.
O Governo do Distrito Federal reconheceu a importância desse conjunto histórico. Em 1973, um decreto declarou de utilidade pública o imóvel que viria a abrigar o Museu Histórico e Artístico de Planaltina. Em 1982, o museu, a Igreja de São Sebastião e a Pedra Fundamental passaram a contar com proteção patrimonial do governo local.
Essas medidas refletem o entendimento de que a história de Brasília não começa apenas nos canteiros de obras de 1956. Antes da construção do Plano Piloto, havia comunidades, fazendas, igrejas, caminhos e cidades na área escolhida para o novo Distrito Federal. Planaltina é o principal exemplo dessa continuidade histórica.
Tradições que atravessam gerações
A memória de Planaltina também é preservada por festas religiosas e manifestações culturais. A Festa do Divino Espírito Santo, a Folia de Reis, as celebrações de São Sebastião e a Via-Sacra do Morro da Capelinha fazem parte do calendário cultural da cidade.
Essas práticas combinam referências religiosas, costumes rurais e formas de convivência que se desenvolveram antes da inauguração de Brasília. A continuidade dessas tradições ajuda a explicar por que Planaltina é frequentemente apresentada como uma cidade de identidade própria dentro do Distrito Federal.
A cidade também reúne áreas naturais e espaços de interesse cultural, como a Lagoa Bonita, o Vale do Amanhecer e a região do Morro da Capelinha. Esses lugares se somam ao centro histórico e à Pedra Fundamental na formação de um conjunto que conecta memória, paisagem e ocupação territorial.
Uma cidade anterior à capital
Planaltina guarda parte da história da região porque sua trajetória atravessa diferentes projetos de ocupação do interior brasileiro. O povoado ligado às rotas coloniais tornou-se município goiano, participou dos estudos para a transferência da capital, recebeu a Pedra Fundamental e, depois, foi incorporado ao Distrito Federal.
Essa sequência ajuda a compreender Brasília para além de seus edifícios modernos e do planejamento urbanístico. A capital foi construída sobre um território que já tinha moradores, atividades econômicas, referências religiosas e núcleos urbanos estabelecidos.
Preservar a história de Planaltina, portanto, significa reconhecer uma dimensão anterior à inauguração de Brasília e compreender como diferentes períodos da formação do Brasil se encontram no mesmo espaço. O casario, o museu, a igreja, as festas e a Pedra Fundamental são vestígios materiais e culturais dessa trajetória.