domingo, 27 de setembro de 2026
Cidades

Planos de contingência entram no centro do debate sobre os efeitos do El Niño

Audiência na Câmara dos Deputados discutiu os riscos associados ao El Niño, incluindo calor extremo, secas no centro-norte, chuvas no centro-sul e prejuízos para a agricultura, a pecuária e a pesca.
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A preparação de municípios para enfrentar secas, enchentes e ondas de calor foi um dos principais temas de audiência realizada pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados na quinta-feira (24). O debate tratou dos efeitos do El Niño e das medidas que já estão previstas na legislação brasileira para reduzir os impactos do fenômeno.

O professor Paulo Antunes Horta, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), apresentou alertas sobre a intensidade do evento climático e defendeu ações urgentes do poder público. Já a consultora legislativa da área ambiental da Câmara, Kenya Simões, afirmou que o país possui leis e instrumentos suficientes para organizar a prevenção, mas que essas medidas precisam ser executadas.

Fenômeno pode ter pico em novembro

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento das águas equatoriais do Oceano Pacífico. De acordo com as informações apresentadas na audiência, o episódio atual começou em junho e vem sendo potencializado pelas mudanças climáticas.

Em 19 de setembro, a temperatura das águas chegou a 3°C acima da média. Segundo Horta, esse foi o maior valor registrado em um único dia. O professor afirmou que a marca coloca o fenômeno entre os mais intensos da história e disse que o pico deve ocorrer em novembro.

Horta também comparou os riscos atuais aos efeitos associados ao El Niño de 1877. Segundo ele, aquele episódio esteve relacionado à morte de cerca de 50 milhões de pessoas por fome, sede e doenças. O professor afirmou que o cenário exige antecipação das medidas de proteção e resposta.

Previsões apontam impactos diferentes entre as regiões

Segundo a Organização Mundial de Meteorologia, o El Niño deve durar pelo menos até fevereiro do próximo ano. Para o Brasil, as previsões apresentadas na audiência indicam possibilidade de secas mais severas no centro-norte, aumento das chuvas no centro-sul e temperaturas elevadas em todo o território nacional.

Os efeitos esperados não se restringem ao clima. Horta citou possíveis prejuízos para a agricultura, a pecuária, a produção de alimentos, a pesca e a maricultura. Na avaliação do professor, a combinação desses impactos pode atingir diretamente as economias das regiões afetadas.

Também foram mencionadas projeções do Climate Impact Lab sobre ondas de calor. O levantamento estima 450 mil mortes em todo o mundo nos seis meses seguintes, principalmente no hemisfério sul. O Brasil aparece na quinta posição entre os países mais impactados, atrás de Nigéria, Indonésia, Sudão e Índia.

Professor defende protagonismo do Parlamento

Durante a audiência, Horta defendeu que o Parlamento assuma protagonismo no enfrentamento dos efeitos do El Niño e das mudanças climáticas. Para ele, os municípios precisam ser avaliados de acordo com as vulnerabilidades específicas de cada região.

O professor citou a necessidade de medidas voltadas à segurança alimentar, hídrica, sanitária e energética. Também destacou a proteção civil, especialmente para prevenir e reduzir os efeitos de enchentes e secas severas.

Horta afirmou que os eventos climáticos extremos se tornaram mais intensos e frequentes nas últimas quatro décadas. Segundo ele, já existe informação suficiente para apoiar decisões do Legislativo e não há espaço para retrocessos na legislação ambiental.

Leis preveem ações antes dos desastres

Kenya Simões afirmou que a legislação brasileira já contempla as principais etapas de gestão e proteção da defesa civil. Entre as medidas citadas estão a elaboração de planos de contingência, o cadastramento de moradores de áreas de risco e a definição de procedimentos para evacuação e abrigamento.

A consultora também mencionou a necessidade de testar sistemas de alerta, sirenes e mensagens, além de realizar simulados e definir rotas e pontos seguros. A previsão de recursos para prevenção, resposta e recuperação também está entre os instrumentos existentes.

“A lei hoje já traz todo o ciclo de gestão e proteção de defesa civil. A gente precisa começar a executar a política”, afirmou Kenya durante o debate.

Entre as normas citadas por ela estão a Política Nacional sobre Mudança do Clima, a Lei 12.340/2010, que trata da transferência de recursos da União para ações de prevenção, resposta e recuperação em situações de desastre, e a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil.

Kenya também mencionou a Lei 14.904/2024, que estabelece diretrizes para a elaboração de planos de adaptação à mudança do clima. A Política Nacional de Proteção e Defesa Civil foi relacionada às medidas adotadas após as mais de 900 mortes provocadas por enchentes e deslizamentos na Região Serrana do Rio de Janeiro, em 2011.

Plano Clima e fiscalização das medidas

O Executivo publicou, em fevereiro deste ano, o Plano Clima Adaptação e planos setoriais voltados a riscos e desastres. Segundo a consultora, o Tribunal de Contas da União também realizou auditorias que apontaram a necessidade de aprimorar os sistemas de alerta, capacitar as defesas civis locais e ampliar a adoção de medidas preventivas.

A Câmara acompanha o tema por meio da Comissão Especial sobre Prevenção e Auxílio a Desastres e Calamidades Naturais. Também participam desse acompanhamento as comissões externas criadas para tratar das enchentes no Rio Grande do Sul e na Zona da Mata de Minas Gerais.

Entre as ações do Executivo citadas na audiência estão a instalação de uma sala de situação coordenada pela Casa Civil, a elaboração de uma nota técnica conjunta por órgãos especializados, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), e o reforço orçamentário para iniciativas de prevenção.